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  • Marta Rangel

As crianças são tão pessoas quanto os adultos

Tenho lido alguns posts, sobretudo de psicólogos, aqui no Instagram que me fizeram pensar:


Quando damos uma queda aparatosa, por vezes, magoamo-nos, temos vergonha e podemos até ter vontade de chorar porque nos aleijámos. Então, porque é que a ideia mais aceite socialmente é não dar demasiada importância quando os nosso filhos caem? Não ir a correr, fingir que não vimos e até dizer "levanta-te, já passou, isso não dói nada"?


A quantas pessoas emprestamos dinheiro, o nosso carro, a peça de roupa preferida ou algo que consideramos importante ou valioso para nós? Às vezes, nem à família ou aos amigos próximos. Então porque é que os nossos filhos têm de emprestar os brinquedos a outras crianças porque senão estão a ser egoístas?





Quantas vezes nos apetece ficar a dormir mais um bocadinho na cama e não ter de acordar cedo para ir trabalhar? Então porque é que, quando são os nossos filhos que não querem ir para a escola, muitas vezes, irritamo-nos com eles e não compreendemos?


Quando estamos tristes, o que é que fazemos? Desabafamos com alguém de confiança, choramos, pedimos um abraço? Então porque é que quando são os nossos filhos lhes dizemos "Não chores, não fiques assim"? Ou - pior - “Deixa-te disso, já não és um bebé!“, “Estás a chorar para quê?”, “Engole o choro senão dou-te motivos para chorar“.


Conheço adultos que, ainda hoje, têm medo de dormir sozinhos, em casas grandes ou em quartos demasiado escuros. Então porque é que quando são os nossos filhos têm de se habituar rapidamente porque aquele é o quarto deles e "tem de ser"?


Quantas vezes não terminamos a refeição porque não nos apetece mais, já estamos saciados ou, naquele dia, estamos sem apetite? Então porque é que os nossos filhos têm de comer tudo? De quantas coisas não gostamos simplesmente porque não? Então porque é que os nossos filhos têm de comer mesmo quando não gostam?



Quantas vezes chegamos de rastos ao final do dia, sem vontade de fazer nada nem paciência para falar com ninguém? Então porque é que estranhamos quando os nossos filhos fazem birra ou ficam impacientes?


Quantos de nós gostam de partilhar as tarefas em casa? Ou ter ajuda da família ou dos amigos para aquilo que não sabem ou não conseguem fazer? Então porque é que dizemos aos nossos filhos que eles têm de arrumar o quarto ou os brinquedos sozinhos?


Quantos de nós condenam a violência e sabem que não se agride alguém mesmo que a pessoa tenha feito algo de errado? Então porque é que achamos que uma palmada nos nossos filhos é uma forma de educar?


Quantas vezes já fomos contra a indicação dada por uma chefia, pela polícia, por um médico ou outra figura de autoridade? Então porque é que esperamos que as crianças sejam sempre obedientes?


Quantas vezes já nos sentimos desconfortáveis em determinados ambientes, demorámos para nos adaptarmos a uma nova rotina ou não nos apeteceu fazer parte de um determinado grupo? Então porque é que esperamos que as crianças se adaptem rápido e sejam sempre sociáveis?


Quantas vezes não temos vontade de cumprimentar determinadas pessoas? Então porque é que os nossos filhos têm sempre de dar um beijinho para não parecerem mal-educados?


Quantas vezes estamos de mau humor, irritados, frustrados e nem sequer temos capacidade ou vontade de disfarçar? Então porque é que os nossos filhos não podem demonstrar o mesmo, em público?


Quantos de nós não gostam que lhes toquem? Então porque é que permitimos que muitas pessoas toquem nas mãos e pés dos nossos filhos ou lhes peguem ao colo?


Quantas vezes entornamos um copo, partimos um prato ou estragamos qualquer coisa lá em casa? Então porque é que nos zangamos com os nossos filhos quando acontece com eles?


E se, de repente, não pudéssemos escolher a roupa que vestimos, o que comemos, para onde vamos, como vamos, quanto tempo ficamos, com quem estamos? Íamos gostar de não ter qualquer controlo ou poder de decisão? Então porque é que esperamos que os nossos filhos aceitem tudo sem reclamar?


As crianças têm querer. As crianças têm direito a ter opinião. As crianças são merecedoras de respeito. As crianças são pessoas. Tanto quanto os adultos.


 

Texto inspirado nos posts da @leilianerochapsicologa @psijuliapedroni @crescer_devagar e @franciellemarim

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