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  • Marta Rangel

Carta aberta aos profissionais de saúde do Hospital S. Francisco Xavier

Neste terceiro vídeo, pretendo agradecer a todos os profissionais de saúde - médicos, enfermeiros, auxiliares - do Hospital S. Francisco Xavier pela forma como trataram de mim: com cuidado, atenção, carinho, humanidade. São profissionais que precisam de ser valorizados e ajudados - pelos governantes e por cada um de nós. Merecem mais do que palmas à janela, por mais bonito que seja este gesto.

Partilho também o meu testemunho como forma de alerta perante algumas confidências que alguns profissionais de saúde me fizeram. Estão cansados e receosos. Esta segunda vaga de Covid19 foi pior do que a primeira e temem que, depois do Natal e Ano Novo, venha uma terceira vaga. Sentem que, com a aproximação da vacina e a "corrida" aos testes rápidos, algumas pessoas estão a facilitar. Por isso, fica a minha partilha - espontânea, gravada à primeira e sem qualquer ensaio - para que todos nós possamos ter o máximo de cuidado possível.

Dei entrada no Hospital S. Francisco no dia 27 de novembro. Fui para as urgências Covid, onde fui recebida por um médico, com uma pronúncia alentejana, cujo nome não me recordo, que foi sempre gentil. Também uma enfermeira - salvo erro chamada Ana Diz - que me foi informando de tudo o que estava a acontecer. Após terem realizado alguns exames, informaram-me que ficaria internada.

Fui transferida para a Medicina 4, um serviço Covid, e fiquei num quarto com outra senhora, também grávida e infetada com o vírus. Um quarto grande, espaçoso, cada uma de nós estava numa ponta, com casa-de-banho e televisão. Pouco depois de ter chegado, fui examinada por um médico da equipa de Obstetrícia - algo que ainda não tinha acontecido desde o início dos sintomas, em quase duas semanas, mesmo tendo ido, por duas vezes, ao Hospital de Cascais. O facto de o médico me ter transmitido que o bebé estava bem, activo, com os sinais vitais todos em ordem e que também eu não tinha tido qualquer sinal de alarme (sangramento, dor ou descolamento) tranquilizou-me muito. Foi um momento emotivo e de grande alívio.

Ao longo dos dois dias que fiquei nesta enfermaria, piorei. Tinha muita tosse, falta de ar e estava sem forças. Não conseguia levantar-me nem sequer para ir à casa-de-banho.

Após fazerem vários exames, nomeadamente uma análise ao nível de oxigénio, que consiste em retirar sangue das veias do pulso, informaram-me que, para o meu bem, iria ser transferida para os cuidados intensivos. Tiveram o cuidado de me dizer para não ficar assustada, que era, apenas, uma forma de estar vigiada 24 horas por dia e receber mais oxigénio.

A entrada nos cuidados intensivos foi muito rápida. De maca, lembro-me de ouvir uma voz dizer "lá para o fundo" e de nem ter tempo para olhar em volta. Sinto que foi de propósito para me protegerem. Nos cuidados intensivos, a maioria das pessoas está em coma induzido, a dormir, inconsciente, ligada a máquinas. E eu, felizmente, estava e sempre estive consciente. Fui colocada num quarto sozinha, com todo o conforto e com televisão (um pormenor que pode não parecer importante, mas é uma companhia). A unidade dos cuidados intensivos onde estive é nova, tem tecnologia de ponta e, segundo me explicaram, é a mais vigiada do país. Costumo dizer que me lembra um episódio da Anatomia de Grey.

Já no quarto dos cuidados intensivos, apareceu uma equipa, constituída por várias pessoas, que vieram dar-me as boas-vindas e apresentar-se. A minha admissão foi feita pela Dra. Susana, que disse ser conhecida como Dra. Sporting :) A Dra. Susana examinou o meu coração e os pulmões. Perguntei-lhe como estavam os pulmões. Disse-me que tinha uma pneumonia. E informou-me também que iam tentar manter-me sempre consciente, mas não sabiam como a infeção ia evoluir. E, se fosse necessário, colocar-me-iam em coma induzido. Felizmente, nunca foi necessário.

No seguimento deste exame, a Dra. Susana fez-me também uma ecografia, onde pude ver o bebé de barriga para cima, com os bracinhos a mexer e a tentar colocar um dedo na boca. Fiquei muito emocionada e agarrei-me a esta imagem com todas as forças: deu-me alento para os momentos mais difíceis. Obrigada <3 No final dos exames, ligou para os meus pais em videochamada. Quando entramos nos cuidados intensivos, os nossos bens pessoais são guardados no espólio do Hospital (carteira, telemóvel, roupa, tudo). No entanto, em cada serviço Covid, existe um telemóvel - creio que cedidos por uma empresa de telecomunicações - através do qual a equipa médica contacta os familiares dos doentes Covid para que não fiquem isolados. Eu não tinha o meu telemóvel nem os contactos e nestas alturas não sabemos quase nenhum número de cor. Lembrei-me do número da minha mãe e os meus pais puderam ver-me, de máscara de oxigénio, com muita dificuldade para falar, nos cuidados intensivos. Foi um momento duro para todos.

Dos três dias que fiquei nos cuidados intensivos, há vários momentos que guardo na memória. Eu tinha muita tosse, dificuldade em respirar, estava com máscara de oxigénio (nível a 100%) e estava dependente para quase tudo. Num dia em que me levantaram da cama e sentaram numa poltrona, tive um ataque de tosse muito grande, comecei a sentir falta de ar e, com os nervos, comecei a ter um ataque de pânico. Uma enfermeira - creio que se chama Mafalda - ajoelhou-se aos meus pés, deu-me as mãos, disse-me que olhasse para os olhos dela e explicou-me para "inspirar como quem cheira uma flor e expirar como quem sopra uma vela". O gesto e as palavras fizeram com que eu me acalmasse e conseguisse voltar a respirar com alguma normalidade - sempre com a máscara de oxigénio. São gestos que não esqueço! <3

Lembro-me também de uma auxiliar, que se identificou como tio da Sílvia, que eu não conheço, mas enviou-me, recentemente, uma mensagem no Instagram e, enquanto estive nos cuidados intensivos, esteve em contacto com uma grande amiga minha para lhe ir dando informações sobre o meu estado de saúde. Obrigada! <3

O coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos, Dr. Pais Martins (e não Pais Dias, como refiro, por lapso, no vídeo), logo no primeiro dia foi ter comigo, tocou-me na mão enquanto eu dormitava e disse que iam fazer tudo para eu ficar bem e sair dali, para eu ter força e coragem para cuidar do meu 'feijãozinho' <3 Alguns dias depois, veio ter comigo mais uma vez para conversar um pouco, para partilhar comigo que sabia que eu era jornalista e que ele tinha ido, pela primeira vez, dar uma entrevista à SIC Notícias. Obrigada pela companhia!

Nos cuidados intensivos há um grande silêncio: ouve-se o barulho das máquinas e, ocasionalmente, a voz dos profissionais de saúde. Um dia, comecei a ouvir a voz de um homem, a contar que era jornalista e tinha escrito vários livros. Quando as enfermeiras foram ao meu quarto, perguntei de quem era a voz e explicaram-me que o senhor tinha estado em coma mais de uma semana, muito mal, mas tinha acordado naquele dia, estava a recuperar e lembrava-se de quem era, da vida dele. Fiquei muito emocionada com o relato que ouvi, no meio daquele silêncio, e senti que devia mandar-lhe o meu apoio. Pedi às enfermeiras que me arranjassem papel e caneta e escrevi-lhe um bilhete: "Somos colegas de profissão e ouvi-o contar as suas histórias. Força e coragem! Estamos entregues aos melhores. Quando sairmos daqui, vamos partilhar com toda a gente que a Covid não é só uma gripe e que os profissionais de saúde precisam de ser valorizados. Vai correr tudo bem". E deixei-lhe o meu número para que me ligasse quando saísse. Alguns dias depois de eu ter alta, ligou-me a dizer que já estava na enfermaria. Actualmente, já está em casa, a recuperar :)

Após três dias nos cuidados intensivos fui transferida para uma nova unidade Covid, o antigo departamento de Ortopedia. Fiquei num quarto sozinha, com óptimas condições, casa-de-banho privada e televisão. Tinha a cama colocada ao lado de uma janela e poder voltar a ver a rua e a luz do sol foi uma benção. Nos cuidados intensivos não vemos a rua e houve momentos em que perdi a noção dos dias e das horas. É claro que podia ter confirmado através da TV, num canal de informação, mas confesso que, naquela altura, ver notícias causava-me ansiedade.

Nesta altura, já me sentia melhor. Precisava de ajuda para ir à casa-de-banho e levar a garrafa de oxigénio, mas fui ganhando autonomia. Fui sempre muito bem tratada pelos médicos, enfermeiros e auxiliares. Lembro-me de uma auxiliar, em particular, chamada Champanito, que entrava no quarto sempre muito bem-disposta com um "Good morning, Bonjour" e, naqueles cinco minutos de conversa, em que me levava uma toalha, toalhitas para fazer a higiene ou escova de dentes , também fazia companhia.

Os médicos também apareciam com regularidade e, assim que tocava a campainha, vinham os enfermeiros ou auxiliares para me ajudar no que fosse necessário. No dia em que tive alta, o Dr. Pedro teve o cuidado de me explicar todos os cuidados que deveria manter assim como a previsão de recuperação: a estimativa para voltar ao "normal", à minha energia inicial, é de 6 meses a 1 ano, mas depende muito de cada paciente.

Partilho tudo isto em nome dos profissionais de saúde: como agradecimento e como alerta.

Os médicos estão com receio que venha uma terceira vaga de Covid depois do Natal e do Ano Novo e que esta seja mais dura, mais exigente, mais difícil para eles e para todos nós. Por isso, apelo a que todos tenhamos cuidado.

Deixo também outro apelo: as instalações onde estive eram excelentes. Mas existiam dois médicos para dois pisos Covid. E estavam muito cansados. Além disso, segundo o que me explicaram, um enfermeiro, em início de carreira, ganha pouco mais de 1000 euros por mês e a progressão na carreira é lenta ou inexistente. Por isso, mesmo que sejam exemplares, dificilmente chegarão ao topo e poderão ganhar melhor (vejam aqui um artigo do Polígrafo que explica bem estas questões). Os auxiliares ganham, em média, entre 600 a 800 euros e muitos não têm formação em Covid: aprendem com os colegas, na medida das suas possibilidades, e estão sujeitos ao risco de serem infectados e levarem o vírus para casa, para os seus entes queridos, tal como todos os outros profissionais de saúde. Por isso, apelo:


Senhor Presidente da República

Senhor Primeiro-Ministro

Senhora Ministra da Saúde


Não imagino quão difícil é gerir uma crise desta dimensão. Sei que a saúde e a economia estão intimamente ligadas: uma não existe sem a outra. Mas, enquanto cidadã portuguesa, utente do SNS e paciente Covid, senti na pele que os profissionais de saúde precisam de mais apoio (mais médicos, mais ajuda para trabalhar, para poderem descansar) precisam de ser valorizados, premiados.


Mas a responsabilidade não é só dos governantes, é também de cada um de nós.

Eu sempre tive todos os cuidados, redobrei-os quando soube que estava grávida e, mesmo assim, fiquei infetada, com 39 anos, sem quaisquer factores de risco ou doenças, tive sintomas graves e estive internada durante uma semana, três dias nos cuidados intensivos.

Por isso, por favor, vamos pensar em nós e nos outros e ter o máximo cuidado possível.

Feliz Natal e Boas Festas com saúde e em segurança!

*

Depois de ter alta, a 5 de Dezembro, Sábado. fiquei em isolamento mais dois dias, em casa, para cumprir os 20 dias de protocolo da DGS para os casos graves como o meu. Segundo a DGS, a partir dos 20 dias já não existe carga viral e deixa de existir perigo tanto para o paciente como de contágio para os outros. Apesar de já não haver exigência de apresentar um teste negativo (vejam aqui a explicação da DGS), tomei a iniciativa de fazer um teste, num laboratório, no dia 15 de dezembro, e deu negativo. Quando cheguei a casa, no dia 5, ainda estava bastante fragilizada. Tinha alguma tosse e dificuldade em respirar. Uma das consequências da pneumonia por Covid é que o pulmão contrai, é como se encolhesse, e a nossa capacidade respiratória diminui. Também perdi massa muscular, por estar quase uma semana de cama, e sentia as pernas a tremer. Andava agarrada às paredes em casa e tinha dificuldade em estar mais do que 5 minutos de pé, falar, subir e descer escadas ou qualquer actividade que implicasse o mínimo esforço. Ficava extremamente cansada após tomar banho, vestir-me ou comer. Felizmente, tenho vindo a melhorar, gradualmente, ao longo destas semanas. Já tive duas consultas de Reabilitação e estou a fazer exercícios respiratórios, com uma máquina, em casa. quatro vezes ao dia. Já tenho mais autonomia, mas ainda me canso bastante. Segundo o médico da Reabilitação, a minha capacidade respiratória normal, tendo em conta o meu peso, altura e idade, deveria ser de cerca de 2600 litros e, em esforço, perto dos 3 mil. De momento, com os exercícios que faço, chega, apenas, aos 750/1000 litros. Mas sei que, com paciência e cuidado, vou recuperar. Obrigada a todos pelo carinho! <3

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