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  • Marta Rangel

#todaagentetemumahistoria

Quando vemos alguém, pela primeira vez, não lhe conhecemos as dores, as mágoas, os conflitos internos. Não sabemos que lutas travou ou se as ultrapassou. A Carminda é a eterna perfeccionista. Não compete com ninguém. Apenas com ela própria. E muito. Quem a vê entrar, pela primeira vez, numa sala, poder-se-ia lembrar de uma borboleta: cheia de cor, esvoaça por aqui e por ali, pousando ora discretamente ora numa espécie de apelo vibrante de quem pede atenção. Adora falar. Talvez porque, um dia, algo parecia travá-la. Talvez porque não a ouviram quando mais precisou. Desde criança que era "a rainha da festa": a mais divertida, a mais sociável, a mais inteligente, a melhor aluna. A mais tudo. Ter 100% no teste de Matemática não era suficiente.

- Faltava-me ler ali um elogio do professor, sabes? Um "parabéns" ou "muito bem".

Sei. Saberei..? E vocês, sabem? Foi possível viver com este nível de exigência durante algum tempo. Talvez demasiado. Exigência só dela, garante. De mais ninguém. Será? A vida deu algumas voltas, que todas as vidas dão quando somos adolescentes, mais ano menos ano. A exigência aumentou. A frustração também. Colou-se na garganta. Fechou-se. Fechou-a. Começou a ter sintomas graves: tinha dificuldades para comer, dores no peito, sentia-se sufocar, vomitava. Chegou a vomitar 10 vezes por dia. Até à mesa de jantar. Evitava ir a jantares com amigos. Se ia, sentava-se junto à porta, para poder sair rapidamente mal se sentisse a sufocar. Andou de médico em médico, de especialista em especialista. É anorexia. Não. É bulimia. Não. É mania de menina mimada. Não, não, não.

- Os médicos não me ouviam. Perguntavam à minha mãe o que é que eu tinha. Não acreditavam nos meus sintomas. Passaram 5 anos e nunca nenhum me pediu para fazer uma endoscopia.

Duvidou dela. Achou que os outros poderiam ter razão. Refugiou-se na religião, dedicou-se ao voluntariado. Focou-se nas dores dos outros para esquecer as próprias. Mas o corpo não deixava esquecer. Doía. Continuava a doer. A dor alastrava-se à alma. O refúgio de outrora não chegava mais. Estava fragilizada, cansada. Ninguém ouvia. Ninguém compreendia. Tentou o suicídio. Felizmente, não conseguiu. Está cá para contar a história. Para fazer história. Não desistiu. Não desistiram dela. A mãe, sempre a mãe. Mas também o pai, a avó, o irmão, o primo, os amigos. Alguns amigos. Um dia, um diagnóstico insólito: acalasia - uma disfunção nervosa, que faz com que deixem de existir as contrações normais do esófago, dificultando a passagem dos alimentos para o estômago. Não era "normal" numa menina da idade dela. E quantas coisas na vida não são normais? 5 anos de sofrimento, de angústia e de dúvidas resolveram-se em menos de 1 mês. Porque 2 médicos ouviram-na realmente. Deram-lhe atenção. Não se deixaram levar pelo que é "normal". Não se contentaram com preencher um formulário a regra e esquadro. Foi operada. Ganhou uma cicatriz das grandes. E uma vida ainda maior, renovada de saúde e esperança. Voltou a comer, a conduzir, a brincar, a estudar.

- Voltei à Faculdade e quis provar que era a Carminda de sempre. Provar a mim, não aos outros. Isolava-me durante dias para estudar! - Continuaste a ser perfeccionista, portanto... - Sim, mas já podia comer! (Risos)

Fico em silêncio. Ela assimila a pausa.

- Sim, ainda estou a lidar com o perfeccionismo. É um processo...

Hoje o sorriso é doce, mesmo quando caem lágrimas. Hoje conhece-se melhor. Na dor e na alegria. Hoje fala o que sente, quando lhe apetece. E ouve muito. Dedica a vida a ouvir, sobretudo, os mais jovens. Porque, um dia, não a ouviram. Mas, principalmente, porque, um dia, ouviram-na verdadeiramente.

Esta é a história da Carminda. Toda a gente tem uma história. Qual é a tua?

#todaagentetemumahistória




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