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  • Marta Rangel

#todaagentetemumahistoria

“Com 9 anos de idade, tive um pequeno negócio. Acordava às 4h da manhã, ia buscar jornais e vendia-os nas estações de autocarros. Às 7h, passava em casa para ir buscar a mochila e ia para a escola. Ganhava 30 cêntimos por dia a vender jornais”.

Esta é uma história de esforço e sacrifício. Esta é uma história de pobreza e fome. Esta é uma história de coragem e esperança. Esta é a história de Shohag, um rapaz de 20 anos, que nasceu no Bangladesh em Junho de 2000. Pouco depois de ter vindo ao mundo, o pai “casou com outra mulher” e deixou a família. Para trás, ficou ele, a mãe, um irmão e duas irmãs. Os mais velhos casaram e seguiram a vida com as novas famílias. Restava ele e a mãe.


Em 2004, mudaram para a capital Daca à procura de melhores condições de vida. A mãe arranjou emprego numa pequena fábrica, mas o que ganhava não era suficiente para os dois: “Não havia sequer dinheiro para a comida, muito menos para a escola”, recorda Shohag. Para ajudar na subsistência, fazia pequenos trabalhos: vendia vegetais na rua e de porta em porta. Ganhava 50 cêntimos por dia - cêntimos do euro, não do taka, a moeda do Bangladesh. Apesar de dar “o dinheiro todo” à mãe, precisavam de ter “cerca de 30 ou 40 euros”, por mês, para comprar comida para os dois”: “Quando não vendíamos, não tínhamos dinheiro, não comíamos”.


- Passaste fome?, pergunto.

- (desvia o assunto e fala sobre outras coisas)

- Dizias que, às vezes, não tinham dinheiro para comer…, insisto.

- (olha, em redor, várias vezes, como se procurasse uma resposta. Ou uma fuga)

- Sei que é um assunto difícil, mas…, tento abordar, delicadamente.

- Sim, passei fome - confessa, por fim. Mas, quando falo sobre isso, automaticamente, caem lágrimas dos meus olhos.


Diante do desabafo, procura fugir da emoção. Instalam-se uns segundos de silêncio entre nós. De consternação, de choque. E, sobretudo, de respeito para com uma realidade que poucos conhecerão. E ainda bem.



Ao longo de todo o seu discurso, Shohag vai sempre procurando virar o foco para o lado positivo. Então, atira que, passado um ano, “tudo mudou”. Conheceu Maria Conceição, responsável pela Fundação Maria Cristina, que tinha ido visitar o bairro de lata onde ele vivia com a mãe: “Eu estava num dark place [momento muito negativo], não via a saída e ela trouxe a luz. É como o sol da minha vida. Por ela, faço tudo”. Com a ajuda da Fundação, passaram a ter casa, comida, roupa, acesso a cuidados de saúde e “mais importante” - refere Shohag - educação. Aos 6 ou 7 anos, começou a frequentar o 1º ano. Mesmo assim, mantinha os trabalhos em tempo parcial para ajudar nas despesas de casa.



Ao chegar ao 8º ano, a vida trouxe-lhe um novo revés: por falta de patrocinadores, a Fundação Maria Cristina teve de encerrar o Dhaka Project, através do qual as crianças tinham a possibilidade de estudar. Nesse ano, Shohag tinha de fazer um exame para passar de ano e, sem a ajuda da Fundação, começava a ver as suas oportunidades caírem por terra. Até que surgiu uma nova luz ao fundo do túnel - pequenina, ténue - mas um sinal de esperança: “Um dos nossos professores assumiu a responsabilidade. Durante quatro ou cinco meses tivemos aulas na rua, num campo aberto, no meio das árvores. Se chovesse, a professora mandava-nos embora. Quando chegou o exame, todos passámos. E voltámos a dizer à Maria Conceição que tínhamos de fazer alguma coisa. E ela disse que sim, que íamos voltar para a escola porque já podia pagar”.



Shohag veio para Portugal em Fevereiro de 2019 para poder continuar os estudos no ensino superior. De olhos iluminados pela esperança no futuro, confessa: “Chegar à Europa era como um sonho”. Apesar de não dominar a língua, sente que as pessoas “são muito gentis e prestáveis”. Em criança, sonhava ser “piloto de aviões”, mas agora pretende ser “um homem de negócios”: "Gostava de abrir um restaurante ou uma loja de sapatos. Gostava de ter a minha própria empresa”. Para ajudar a pagar as despesas, trabalha, em part-time, numa cadeia de fast-food, tal como alguns dos seus amigos. Mas não chega: “Tenho de pagar os estudos, alojamento, alimentação e enviar dinheiro para a minha mãe. Não é suficiente. Não consigo poupar e às vezes é difícil manter tudo”. Quando lhe pergunto por que motivo ajuda a mãe, a resposta vai muito além do amor de filho. É uma necessidade.

- A minha mãe está sozinha e tem de pagar a casa, alimentação, médico. Ela é idosa, já não trabalha. Está totalmente dependente de mim. Se eu enviar dinheiro, ela come. Senão, não tem comida.


Apesar da distância geográfica, não há distância nos afectos:


- Dei-lhe dinheiro para ela comprar um telefone. De vez em quando, faço uma videochamada e ela chora sempre que falamos. Tem muitas saudades minhas.


Um dia, quando as turbulências passarem, Shohag quer mostrar a todos onde esteve e onde chegou.

- Na minha família, têm muito orgulho em mim porque fui o único que continuei os estudos. Quando terminar, vou visitar a minha mãe e mostrar-lhe como era a minha vida e como é agora. Às vezes, não consigo acreditar que vivo em Portugal.


Enquanto isso, as preocupações dividem-se (e multiplicam-se) entre Daca, onde a mãe permanece, e o Porto, onde Shohag vive.


Terminou o primeiro ano do curso de Business Management no Instituto Politécnico de Bragança, mas precisa de dinheiro para continuar: “A minha preocupação é continuar os estudos. Estou a trabalhar muito, mas preciso de 2500 euros para pagar as propinas dos próximos 2 anos. Preciso de um emprego melhor para ganhar mais e pagar a minha educação. Se encontrasse um patrocinador, seria mais fácil para mim terminar os estudos. E ficar-lhe-ia eternamente grato”.

A gratidão de Shohag estende-se a todos aqueles que o têm ajudado. E também não esquece quem ficou - e não quer deixar - para trás.


- Eu quero fazer por outras crianças o que a Maria Conceição fez por nós. Eu sinto a dor deles porque eu estive lá. Se pudesse, salvava-os todos. É a minha ambição.


Se tudo isto fosse um filme, poder-se-ia tratar de um favor em cadeia. De uma miséria romanceada para parecer melhor aos olhos de quem assiste. Mas é a vida real. E, naquilo que, para nós, ocidentais, tem de mais essencial - e até, banal - para um menino que veio do Bangladesh, é um sonho: ter casa, comida e educação. Um sonho que ele quer partilhar com outros iguais a ele. Um sonho que não quer deixar morrer. Um sonho que poderá tornar-se realidade. E isso está nas mãos dele e de todos nós. Se puderem, ajudem a Fundação Maria Cristina. Hoje por eles. Um dia, quem sabe, por nós.

Esta história é real e relata a vida de Shohag, contada na primeira pessoa, durante uma entrevista realizada por videochamada no dia 26 de outubro de 2020. Foi escrita no âmbito de um trabalho que está a ser realizado para a Fundação Maria Cristina.

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