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  • Marta Rangel

#todaagentetemumahistoria

“A minha mãe morreu no parto e o meu pai era toxicodependente. A minha avó assumiu a responsabilidade, mas não tinha dinheiro suficiente nem para a nossa alimentação. Pedia esmolas e, mesmo assim, só conseguíamos comer uma vez por dia. Fui sempre rejeitada pelo resto da família. Mas, um dia, quando tinha dois ou três anos, a minha avó levou-me a casa de uma mulher que tinha dois rapazes e não tinha meninas. Ela aceitou-me, mas não avisou o marido. E, quando cheguei a essa casa, estavam todos furiosos por ela me ter adoptado. Deram-me o nome de Labony. Não me lembro do meu nome verdadeiro”.


Nasceu a 1 de abril de 1999 com outra identidade que a memória - ou talvez a vontade de esquecer - apagaram. Na nova família, aos poucos, acabaram por aceitá-la. No entanto, esta bonança durou pouco.


- Quando o meu irmão mais velho casou, já não me queriam lá em casa. A mulher dele não gostava de mim porque descobriu que eu não era filha biológica.

- E os teus pais não te defendiam?

- Os meus pais não diziam nada. Ela vivia lá em casa, tinha mais direitos do que eu.


Nesta altura, eram 7 pessoas a viver sob o mesmo tecto e “ter comida suficiente para todos era desafiante”. Como se não bastasse, outras desgraças abateram-se sobre a vida de Labony. Em 2007, o irmão mais novo morreu num acidente de carro e o pai perdeu o emprego que tinha numa fábrica têxtil. Alguns meses depois, a avó - com quem Labony ainda mantinha contacto - adoeceu. Os pais adoptivos tentaram cuidar dela, mas não resistiu e acabou por falecer.


A família ficou “inundada em tristeza”. Mas era necessário continuar a sobreviver. Por isso, a mãe de Labony começou a trabalhar “em casas de pessoas ricas” e levou-a consigo.



No ano seguinte, surgiu uma luz ao fundo do túnel. A família ouviu dizer que, na Fundação Maria Cristina (MCF), criada por Maria Conceição, era possível estudar, de forma gratuita, e inscreveu Labony. Tinha 8 anos e não sabia ler nem escrever.


- Ir para a escola, ser uma pessoa com educação, era o meu sonho. Quando entrei na MCF, tudo mudou. A Maria deu-nos educação, comida, tomava conta de nós, dava-nos tudo. Ela diz que, se acreditarmos em nós, podemos fazer tudo na vida.


Labony agarrava-se, assim, à oportunidade que a vida lhe tinha dado, na expectativa de ter um futuro melhor. E, até na família, parecia haver sinais de esperança: em 2014, o pai conseguiu abrir “uma pequena loja de chá” e, durante algum tempo, foi “a única fonte de rendimento”. Mas, três anos depois, o pai adoeceu e acabou por falecer.


- Depois do meu pai morrer, a minha mãe teve de gerir tudo sozinha, mas era difícil. Então, comecei a ir com ela para a loja, para ajudar. Só que ouvíamos coisas feias das pessoas porque, no nosso país, uma mulher trabalhar é uma coisa má. Por isso, a minha mãe disse para eu deixar de ir para a loja. Ela não queria que eu sofresse.


Apesar de todas as dificuldades, Labony estava quase a concluir os estudos, quando a sua vida sofreu um novo revés.


- Em 2018, tive tuberculose e não consegui fazer o exame final da escola. Perdi um ano por estar doente.


No entanto, com a ajuda da MCF e de Maria Conceição, Labony completou, recentemente, o 12º ano e chegou ao Dubai para realizar um estágio numa empresa, em novembro de 2020.


- Quando cheguei ao Dubai era um sonho. Nunca imaginei que isto me pudesse acontecer: ter um trabalho, este estilo de vida… Ainda não acredito que estou aqui!


Depois do estágio, pretende entrar no curso de International Business Management, em Portugal, e, um dia, “ser uma mulher de negócios de sucesso”. Mas, para continuar a estudar, precisa de apoio financeiro. Talvez inspirada por Maria Conceição - que se tornou atleta para angariar financiamento para a Fundação Maria Cristina - Labony quis também demonstrar a sua força de vontade. Por isso, em troca de donativos, corre maratonas, faz flexões, pranchas - o exercício físico que for necessário para chegar à meta da educação. A determinação e a resiliência terá herdado da mãe que, apesar do preconceito local, continua no Bangladesh a gerir a loja sozinha.


- As pessoas ainda lhe dizem coisas más, mas não podemos fazer nada quanto a isso. A minha mãe vive com o meu irmão mais velho, a mulher e os dois filhos. Ninguém trabalha.

- O teu irmão não trabalha?

- Não. O meu irmão não gosta de trabalhar. É preguiçoso. Foi sempre assim. A minha mãe é que sustenta toda a gente.



A mãe, com 57 anos, é - para os padrões do Bangladesh e nas palavras de Labony - “muito velha”.


- Ela já não tem forças e sente-se mal, mas só pensa que tem de alimentar a família. Se ela não trabalhar, não há comida. Por isso, vai para a loja todos os dias.


A relação de Labony com o irmão “não é boa”. E resume-a em apenas uma frase: “Ele não gosta de mim”. Em contrapartida, a mãe é “tudo” para ela - a maior fonte de apoio, de incentivo, de amor:


- A minha mãe é tudo para mim porque adoptou-me e tomou conta de mim. Tudo o que conseguir na minha vida, quero dar-lhe. Ela está muito orgulhosa de mim por ter chegado onde cheguei. Diz-me para eu não ouvir ninguém, nem as pessoas da minha família, para eu fazer o que for melhor para mim. Sempre me encorajou.


Por isso, Labony confessa, emocionada, que, na sua vida, só duas pessoas importam:


- Eu só tenho duas pessoas na minha vida: a minha mãe e a Maria. Se elas não existissem, eu não era nada. São a minha família, o meu futuro, o meu tudo. São anjos na minha vida. Não sou nada sem elas.


Maria Conceição criou a Fundação Maria Cristina, que já apoiou centenas de crianças no Bangladesh a ter melhores condições de vida e acesso a educação para que, um dia, sejam independentes e autónomas. Se quiser saber mais informações ou contribuir para esta causa, pode fazê-lo através do site, Instagram ou Facebook da MCF.


———

Esta história é verídica e relata a vida de Labony, contada na primeira pessoa, durante uma entrevista realizada por videochamada no dia 22 de janeiro de 2021. Foi escrita no âmbito de um trabalho que está a ser realizado para a Fundação Maria Cristina.

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