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  • Marta Rangel

#todaagentetemumahistoria

“O meu pai tinha um pequeno negócio a fazer riquexós e a consertar antigos. Um dia, disse-me: ‘Vou a um sítio. Se eu regressar antes das 10h da noite, vamos para casa juntos, senão, podes fechar a loja e ir para casa’. Esperei até à meia-noite, mas o meu pai nunca regressou”.

Mintu, 32 anos, tinha apenas 9 quando o pai abandonou a família. Segundo a tradição do Bangladesh, ele passou a ser “o homem da casa”.

- Estávamos a ter problemas financeiros e o negócio não estava a correr bem. O meu pai abandonou-nos porque não estava a conseguir pagar os empréstimos. Por isso, tive que ir trabalhar como carpinteiro. Com 9 anos, trabalhava das 8h da manhã às 5h da tarde e das 5h30 à meia-noite noutro trabalho. Isto tudo por 25 taka (0,26 euros).

- O que é que conseguias comprar com tão pouco dinheiro?

- Com este dinheiro, conseguia comprar 1 quilo de arroz, 1 quilo de farinha e um pouco de açúcar. Fazíamos um roti - é parecido com o pão naan - e comíamos um ou dois pedaços por dia com um prato de arroz.


Mintu trabalhou como carpinteiro “durante alguns anos”, mas não era suficiente para apoiar a família.

- Como o trabalho não era regular, passávamos por muitas dificuldades. Se eu não tivesse trabalho um dia, não comíamos.

Por isso, decidiu deixar a aldeia onde tinha nascido e ir para a capital Daca à procura de emprego. Foi sozinho, com apenas 11 anos.

- Quando fui para Daca tive muita dificuldade em arranjar emprego porque eu era muito novo e era ilegal dar emprego [a um menor de idade]. Tinha um familiar que trabalhava no sector têxtil e ele fez um pedido, pediu que abrissem uma excepção para mim. O salário era de acordo com a minha idade - muito pequeno. Os outros trabalhadores não gostavam de mim porque mentiam sobre o trabalho que faziam. Eu era criança, não sabia mentir. Dizia a verdade e isso causou-me problemas.

Durante esta fase, Mintu vivia num Hostel e partilhava um quarto , cheio de mosquitos, com 16 pessoas, e tinha muitas dificuldades para dormir.

- Eu trabalhava dia e noite para pagar os empréstimos. Estava a ser pressionado por todos os lados. Trabalhava das 8h da manhã às 8h da noite, fazia uma pausa de 2 horas para jantar e voltava ao trabalho para fazer o turno da noite das 10h da noite às 3h da manhã. Às vezes, surgiam cargas para descarregar e eu aproveitava para ir ganhar mais 20 takas (0,20 euros).

- Durante quanto tempo fizeste isso?

- Devido ao meu esforço, após 2 meses de trabalho duro consegui enviar dinheiro para a minha mãe e a minha família veio para Daca.

Antes do pai ter o negócio, Mintu frequentou a escola. As poucas habilitações literárias devem-se também ao facto de ter tido uma má experiência.

- Quando tinha 6 anos, fui para a escola. Era muito pobre e não tinha mochila, livros ou uniforme. Também não levava almoço para a escola nem nada parecido. Por isso, a escola não foi uma boa experiência.

- Durante quanto tempo estudaste?

- Depois da 3º classe, a minha família mudou de casa. Ia para a 4ª classe, mas tive que desistir para ajudar o meu pai na loja. Tinha 8 anos.

Graças à Fundação Maria Cristina (MCF), Mintu pode aprender inglês. Estudou durante três ou quatro anos no British Council e foi ao Dubai à procura de emprego.

- Nessa altura, fui ao Dubai e fiz uma série de entrevistas de emprego. Ia ter uma oportunidade numa companhia aérea, mas houve uma proibição da concessão de vistos.

- Proibição da concessão? Porquê?

- Havia actividades criminais no Dubai. Foi por isso que houve uma proibição da concessão de vistos a cidadãos do Bangladesh. Só foi levantada este ano.

Mintu fala pouco inglês e, durante esta entrevista, o irmão Milon Mia ajudou a traduzir. É também devido ao apoio do irmão que a vida de Mintu é um pouco melhor. Ao contrário da maioria dos estudantes da MCF, Mintu não teve “uma transformação na vida” e “precisa mesmo de uma oportunidade”.

- Tenho uma filha com 3 anos. Chama-se Mira. Não quero que a minha filha sofra como eu sofri. Quero dar-lhe boas memórias de infância.

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